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“A diferença só nos enriquece”, diz brasileira que ficou entre os 10 melhores professores do mundo no “Nobel da Educação”

Bydaianelealcosta

jan 7, 2021

07 janeiro de 2021

A vitória de Disale acabou sendo uma surpresa para Doani Bertan. Afinal, o indiano anunciou que iria dividir o prêmio com os outros Top 10 da lista – o que surpreendeu muito a paulista de 39 anos, que descobriu a vocação para ensinar Libras, a Língua Brasileira de Sinais, ainda quando criança, inspirada pelos versos da música da Xuxa “A de Amor, B de Baixinho, C de coração”, quando a apresentadora usava as mãos pare representar as letras.

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Imagem da final do Global Teachers Prize, este ano on-line(Foto: Global Teacher Prize, Divulgação)

Doani foi catadora de papelão, artesã, telefonista e, aos 18, fez um curso oficial de Libras que mudou a vida dela. Desde 2012, é professora bilíngue na Escola Municipal Júlio de Mesquita Filho, em Campinas (SP), e há três anos ajudou a montar um currículo que incluísse (de verdade) os alunos surdos e acabasse com salas separadas.

Em 2020, o Global Teacher Prize foi virtual – aliás, é também no mundo virtual que Doani mantém canal no YouTube, o Sala 8 – e o anúncio foi no último dia 3. Quando o comediante Stephen Fry subiu ao palco e anunciou que o vencedor seria o indiano, nada de desânimo para Doani. Pelo contrário, ela não para. Dona de um riso alto, de uma voz forte, ela vira para a câmera e diz “Tchutchu, estou muito, muito feliz de estar entre os dez. E mais feliz ainda de poder ser ouvida”, ela diz. Palavra de uma das melhores professoras do mundo. 

Como é ser uma das 10 melhores professoras do mundo?

Estou muito feliz de poder estar entre as dez, mas mais feliz ainda de poder ser ouvida. Uma coisa é você discutir na sala de aula, na sala dos professores, né? Outra coisa é você falar isso para o mundo. Então, quando me inscrevi, a proposta era esta: dar visibilidade para as bandeiras que carrego, que são a educação de surdos, a própria comunidade surda, a representatividade, a valorização e reconhecimento da Libras e dos professores. Principalmente os das escolas públicas. Então, é bom por isso, sabe? Tem esse reconhecimento meu, enquanto pessoa, mas também poder levar e dar visibilidade às minhas bandeiras.​

Sua história tem até a influência da Xuxa… O que mostra que uma pequena iniciativa pode fazer a diferença. Afinal de contas, uma música da Xuxa ajudou a formar uma das melhores professoras do mundo…

É verdade né? E não só a influência da Xuxa, mas também aquele chaveirinho que a minha mãe comprou de um surdo, e ali tinha o alfabeto manual. Então, é importante que a gente ofereça o máximo de possibilidades para as crianças. Afinal, é nesse momento, a infância, que a criança está descobrindo o mundo, né? Então, que a gente possa cuidar das infâncias e oferecendo o máximo de recursos possíveis para que ele possa se identificar com algo. E porque não, que ele possa vir a fazer a diferença no mundo!

Além da inclusão, a tecnologia é uma das ferramentas que você usa. Foi algo orgânico, natural, ou você conseguiu criar uma estratégia?

Bom, em uma sociedade cada vez mais tecnológica, não dá para a professora, e eu, claro, falo por mim, não acompanhar alunos, crianças, que dominam as tecnologias, mexem em celulares, tablets, e ficar fechado, restrito ao caderno e ao lápis. Acredito que a educação tem essa função, de também trazer a sociedade para dentro da sala de aula. E poder oferecer o que está acontecendo lá fora também dentro da sala de aula, para os meus alunos, isso, a meu ver, é essencial, é fundamental. Não dá para a sociedade ser tecnológica e a sala não. Isso, na minha concepção, é inadmissível. E eles gostam, eu adoro e estou feliz com isso!

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Doani e um dos alunos durante uma das aulas dela(Foto: Global Teacher Prize, Divulgação)

E o que é o Sala 8?

Bom, o Sala 8 é um canal meu no YouTube – e agora, durante a pandemia, também no Facebook – onde disponibilizo videoaulas e atividades para as crianças surdas e ouvintes. E, claro, como é um canal aberto, todas as pessoas podem se inscrever e usar os conteúdos, gratuitamente!

O que você já conseguiu de bacana como o Sala 8?

Ah, o Sala 8 trouxe vários frutos, né? E, bom, o que gosto muito de mencionar é o estreitamento linguístico entre a criança surda e a família ouvinte. Então, a família da criança surda hoje, além de acompanhar o que ela está aprendendo, também tem contato com a Libras – aquela Libras mais utilizada no ambiente educacional. Então, por exemplo, os movimentos da Terra, rotação e translação, a gente não conversa isso comumente com uma criança, no dia a dia.Leia maisRefeiçãoMerenda escolar volta a ser distribuída aos alunos da rede pública de SC, após quatro meses suspensa

Mas na escola falamos isso, pois é um conteúdo, então a criança chega para a mamãe contando o que aprendeu sobre esse conteúdo, e a mamãe, o papai, eles sabem do que a criança está falando. E isso é muito legal, né? Então, o Sala8 trouxe também aprendizado de Libras para as famílias.

Como é ter, na mesma sala, ouvintes e surdos?

Bom, na sala de aula são dois públicos: surdos e ouvintes. E são duas professoras também, não fico sozinha na sala de aula, é a docência compartilhada. As aulas são planejadas para os dois públicos. As pessoas pensam “Ah, mas a pessoa fala e você interpreta?”. Não, não é assim (que funciona). As estratégias utilizadas são pensadas para que a gente consiga sim atingir aos dois públicos. Mas é claro que as especificidades linguísticas são respeitadas e contempladas nesse nosso ambiente. É assim que é a nossa sala de aula.

A sua história de inclusão é um exemplo, diante de tantas dificuldades vividas por educadores no Brasil. O que te levou a inovar tanto, a tentar tanto, mudar a forma de ensinar?

O que me fez mudar a forma de ensinar… Bom, não foi mudar, né? Foi aprimorar. Claro, foi uma necessidade, óbvio. O que acontece? A criança surda recebe o mesmo material didático da criança ouvinte. E aí a gente vem com o discurso da “igualdade”, né? E a igualdade não é algo inclusivo para uma sociedade que é diferente! Então quando ofereço o mesmo livro para ambos os públicos, na verdade, não estou incluindo. Estou, ainda mais, excluindo. Afinal, a criança surda está em processo de aquisição, de construção da língua portuguesa assim como da Libras, que é a primeira língua.

A criança surda recebe o mesmo material didático da ouvinte. E aí vem o discurso da igualdade. E igualdade não é algo inclusivo para uma sociedade que é diferente! Quando ofereço o mesmo livro para ambos, estou excluindo ainda mais

Então, por ser um sujeito que tem como na língua natural a Libras, o ideal seria que esse material viesse na sua língua, que é a Libras. Então, quando a gente fala da igualdade, a gente esquece das especificidades. A gente tem que tomar cuidado com o discurso da “igualdade” e lutar mais com o discurso da “equidade”. Bom, aí meu aluno tem o material em português, que para ele o uso sozinho, em casa, é ineficiente. Ele não consegue usar o material, pois ainda é uma criança, e aí então quando precisa fazer a lição de casa, ele não tem o material de apoio. A não ser que ele tenha ali do lado alguém que saiba o português mais que ele. Então, ele está sempre dependendo de alguém.

O Sala8 vem com a proposta de oferecer o conteúdo escolar de forma lúdica, inclusiva, numa língua que é a Libras, e numa linguagem infantil, para que meu aluno tenha flexibilidade de estudo, tanto no horário quanto no ambiente.

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Doani é professora bilíngue e atua desde 2012 na Escola Municipal Júlio de Mesquita Filho, em Campinas (SP)(Foto: Global Teacher Prize, Divulgação)

Cobri alguns Global Teachers Prize, em Dubai, e fiquei emocionado com o anúncio do vencedor, de que dividiria o prêmio. Foi uma surpresa? Tem planos?

Nossa, foi uma super surpresa, né? (Risos). O professor indiano, e não sei pronunciar o nome dele, tenho dito “Ranji” (Ranjitsinh Disale), ele foi um fofo, né? Uma graça. Nos ajudar, ajudar a educação no mundo, além do lindo trabalho que ele realiza na Índia com as meninas – e é um trabalho maravilhoso, quem não conhece convido a conhecer – ele ainda divide a metade do prêmio dele com os outros 9 professores! Então, vamos nós, sim, claro, usar desse prêmio para investir na educação, né? Pretendo investir no canal Sala 8 e também contemplar alunos e professores.

Assisti à sua conversa com a Fabíola Borba e uma coisa me chamou atenção: o silêncio. Alguma vez algum aluno teu definiu pra você como é ser surdo?

Então, por estar com os surdos já há muitos anos, e por muito tempo dos meus dias, é muito comum a gente conversar sobre as nossas especificidades, e não só pelo fato deles serem surdos não! No meu caso, por exemplo, não sinto cheiros, precisei até fazer tratamento para isso. Então, eles comentam, “ó, professora, hoje estou sentindo cheiro de carne com batata, hoje a merenda é carne com batata”. E fico maravilhada com o poder deles de sentir cheiro! E às vezes espirro e eles dizem “tá com cheiro daquilo que a tia lava o banheiro…”, aí penso, nossa, é algum produto químico que está me dando reação alérgica. E às vezes está pegando fogo e eles vêm correndo me contar “estou sentindo cheiro de queimada”… É, enfim, um ajuda o outro.

Às vezes tem uma porta que bate e assusto, eles perguntam “o que foi?”, explico que a porta que bateu. Então, proporciono meu mundo para eles, e eles proporcionam o mundo deles para mim, né? Ah, outra coisa que aconteceu… Uma vez um aluno esqueceu o agasalho na carteira, na sala, e a gente não sabia de quem era, aí veio outro aluno, pegou o agasalho, e disse, “esse é o perfume de tal aluno”. Achei o máximo, e perguntei “como você conhece alguém pelo cheiro?”. Então, essas trocas, esse dividir mundos é muito legal. E é por isso que falo: a diferença só nos enriquece. É incrível. 

Qual seu conselho para ajudar na inclusão?

Não sei se seria um conselho, mas antes de tudo, empatia. Você olhar o outro, ver o outro, e entender as suas necessidades. Acho que a empatia vem bem com o termo inclusão. E também, e acho que é o que mais falta nesse nosso país, é a questão da representatividade. É muito comum a gente ver pessoas que não têm deficiências definindo, decidindo, situações, leis, para as pessoas que têm deficiência. E aí a representatividade não existe praticamente no nosso país. E acho isso um grande erro!

Eu, por mais professora de surdos que seja, não sou uma surda. É como comento com as mamães de surdos “vocês são mães de surdos. E não sei o que é ser mãe de surdo. E vocês não sabem o que é ser professora de surdos. Mas nós, com nossa bagagem, nossa experiência, podemos contribuir muito uma com a outra”. E o sujeito surdo tem muito que contribuir com sua própria inclusão. O surdo, nas suas necessidades, nos seus desejos, afinal, são pessoas que têm desejos. E é dar isso, aos surdos, a oportunidade para que a educação, a inclusão, seja efetiva.

É comum a gente falar “é bom todo mundo junto na mesma sala”. Mas será que é isso que o surdo precisa e quer? Eu, como professora, serei a melhor que eu puder ser, seja na escola especializada, seja na escola inclusiva, ou até mesmo lá debaixo da árvore. É minha obrigação ser a melhor professora para aquele aluno.

Agora, que bom, se esse meu aluno estiver no ambiente que ele escolheu, que ele se sinta bem. A gente fala de “democracia”, mas a gente esquece que “democracia” não é só no momento da urna. Ela tem que acontecer o tempo todo. Os direitos e escolhas têm que prevalecer. Que a gente possa trabalhar e exercitar mais a empatia. E que possamos dar mais voz, representatividade para todos.

A gente fala de “democracia”, mas a gente esquece que “democracia” não é só no momento da urna. Ela tem que acontecer o tempo todo. Os direitos e escolhas têm que prevalecer

Brasileiros entre os melhores

A edição 2020 do “Global Teachers Prize” selecionou três brasileiros NO top 50 final. A professora de educação especial e Língua Portuguesa Doani Emanuela Bertan, da Escola Pública Municipal Professor Ricardo Junco Neto, em São Paulo, e da EMEF Júlio de Mesquita Filho, em Campinas; o professor de História e especialista em educação inclusiva Francisco Celso Freitas, do Centro de Ensino da Unidade de Hospitalização de Santa Maria; e Lília Melo, da Escola Brigadeiro Fontenelle, de Belém.

O prêmio, que está na 6ª edição, mantém a tradição de ter brasileiros entre os escolhidos. Em 2019, Debora Garofalo, professora de tecnologias de uma escola municipal em São Paulo, e Jayse Ferreira, professor de educação artística em Itambém (PE), ficaram entre os dez finalistas. Já Diego Mahfouz Faria Lima, diretor de uma escola de São José do Rio Preto (SP), esteve entre os dez finalistas na edição 2018.

Em 2017, Wemerson da Silva Nogueira, professor de química e ciências em Boa Esperança (ES), ficou no top 10.

Por Fabrício Vitorino

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